Quando a pessoa toca a própria música
Por Eveline Alves de Abreu
Há encontros clínicos em que uma palavra parece insuficiente para abarcar aquilo que a pessoa vive. A dor chega fragmentada, estilhaçada por lembranças, ressentimentos e perguntas que ainda não encontraram um lugar onde possam se encaixar. Nesses momentos, às vezes emerge uma imagem, uma poesia ou uma canção que oferece contorno ao que, até então, era apenas um sentimento difuso.
Em um desses encontros, uma cliente compartilhava sua frustração diante da relação estabelecida com os irmãos. Recordava que, durante os últimos anos de vida de seus pais, foi ela quem assumiu os cuidados cotidianos. Acompanhou consultas, administrou medicações e cuidadores, atravessou internações, reorganizou a própria vida para sustentar a deles. Naquele tempo, sentia-se valorizada, procurada, reconhecida pela família. Hoje, com a ausência dos pais e o fim dessa responsabilidade, percebe que os vínculos parecem ter mudado de lugar. Os telefonemas se tornaram escassos, os convites desapareceram, e sua presença parece ser lembrada apenas quando há alguma necessidade a ser resolvida. Sua fala não carregava apenas tristeza. Havia uma indignação profunda diante da percepção de que o afeto recebido parecia condicionado à sua utilidade.
Na potência e entrega daquele encontro, me surgiu a lembrança da canção Geni e o Zepelim, de Chico Buarque. Compartilhei com ela a imagem da protagonista da música, uma mulher que, durante toda a narrativa, é desprezada, julgada e rejeitada, mas que, quando se torna necessária para salvar a cidade, passa a ser procurada, valorizada e desejada. Terminada sua função, volta imediatamente ao lugar da exclusão.
A analogia não pretendia explicar sua história, tampouco definir sua experiência. Era apenas uma possibilidade de aproximação. E foi então que algo aconteceu. Seus olhos se arregalaram, como se a imagem trazida por mim tivesse encontrado sentido. O silêncio que se seguiu parecia anunciar que algo dentro dela havia se encaixado. Ao reconhecer-se naquela imagem, ela se apropriou desse sentimento e pôde, enfim, dizê-lo em primeira pessoa. Mais do que reconhecer uma ferida, começou também a reconhecer um desejo: o de não perpetuar esse modo de existir em que o próprio valor depende daquilo que oferece aos outros. Apenas emprestei uma imagem; foi ela quem reconheceu, ali, sua própria voz.
Na Abordagem Centrada na Pessoa, Carl Rogers nos lembra que a mudança acontece quando a pessoa encontra um espaço suficientemente seguro para entrar em contato com sua própria experiência. O terapeuta não produz a transformação; oferece uma relação marcada pela presença, pela autenticidade e pela aceitação, para que aquilo que já pulsa internamente possa emergir.
Talvez seja esse um dos gestos mais bonitos da clínica humanista, especial na Abordagem Centrada na Pessoa: confiar que cada pessoa traz consigo uma sabedoria organísmica, ainda que, por vezes, ela esteja encoberta pelas exigências, pelas relações e pelos papéis que aprendeu a desempenhar. Quando a minha cliente conseguiu reconhecer um padrão que atravessa sua história, não porque lhe foi imposto no contexto terapêutico, mas porque encontrou dentro de si recursos, inaugurando um movimento de abertura e liberdade.
A música de Chico Buarque permaneceu apenas como metáfora. O que realmente transformou aquele encontro foi o instante em que ela deixou de olhar apenas para a forma como era tratada pelos irmãos e passou a olhar para si mesma, perguntando-se se desejava continuar ocupando esse lugar de quem existe apenas enquanto serve.
A clínica, por vezes, é exatamente isso: um espaço onde uma canção deixa de ser apenas uma canção e se torna espelho. Não para aprisionar alguém em uma história, mas para que, ao finalmente se reconhecer, possa escolher e estar no mundo de uma maneira diferente.