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ACP
18 Ago 2026

ACP nas Políticas Públicas

Por Aline de Oliveira Calisto

Diário vivo: um diálogo nascente entre mulheres que desejam facilitar mundo.

Me lanço a essa escrita, sob o convite das moradoras da Casa ACP, que me ofereceram com zelo e cuidado um quarto de hóspedes, um quintal que floresce, uma sala que aconchega. E, mineira como somos, uma cozinha onde o café pode ser passado no coador de pano. Para que eu possa, junto a elas construir morada. A liberdade desse convite, me levou para lugares diversos. Em primeiro momento, me ative justamente a palavra liberdade, um substantivo muito caro a Abordagem Centrada na Pessoa. Já que, é por meio dela que temos solo para explorar nossas possibilidades. Portanto, é a sob seu uso, que ouso me aventurar neste texto sem roteiro, mas que se faz abertura.

Outra questão que ressoou fortemente em mim, durante a prosa que tivemos, foi a presença explícita da tendência formativa. De algum modo, nossa conexão acontece, sem que saibamos explicar, ou descrever exatamente em palavras. Sabemos sim, experimentar no corpo e na relação, isso que se dá entre nós – eu e a Casa ACP. E porque digo a casa? Seria objetificar as habitantes desse lar? Não, é justamente para dizer que a casa são elas.

Essa conexão entre nós aconteceu, pois, encontramos morada umas nas outras, ainda que, de forma esporádica ou distante fisicamente, mas, conectada organismicamente. E, curiosamente, ou não, recebi o convite de me achegar a Casa ACP em um momento ímpar de minha experienciação de mundo. Um momento em que, estava sendo tocada a me lançar para além das paredes da clínica tradicional, que a meu ver é sempre clínica ampliada. Portanto, esse organismo vivo que é a terra, e os seres, fez ressoar em nós a busca por esse laço e integração, que aqui buscamos construir.

Quando penso sobre a clínica em Psicologia, sou atravessada a diálogos internos profundos no tocante a abertura de mundo entre quatro paredes. Como, anteriormente pontuei, clínica é sempre ampliada. Esse é, portanto, um compromisso ético, o de me relacionar nesse espaço com Pessoas – como aprendi com Carl Rogers.

Ora, então, o texto que se fazia sem roteiro começa a ganhar forma, já que, passo a dizer de um trecho dessa minha caminhada de vida, tendo a psicologia como pulmão. Não é por acaso, que estou sentada diante do computador, “catarseando” essas palavras, às quatro e meia da manhã. Sou impelida assim, a refletir a psicologia, ou a mim mesma nela, a partir das inquietações que me tocam. Elas são muitas, muito embora neste momento, me coloco a cargo da memória, e o que se apresenta é a reflexão da psicologia nas políticas públicas. Como por alguns anos, estive nesse papel, e também por alguns anos já não me encontro nele, sou sempre convocada internamente a olhar para esse lugar, que tanto me potencializou, assim como me fragilizou - ser psicóloga no SUS e SUAS.

A decisão de me dedicar exclusivamente a psicologia clínica, como é o caso atualmente, não veio sem peso. Se fazendo sempre presente um compromisso de estar próxima daquele lugar. Curiosamente, ou não, os convites a palestrar, a participar de projetos, facilitar rodas de conversa ou situações semelhantes sempre estiveram presentes. E assim eu me vi em determinado momento, num processo que pareceu tão natural quanto espontâneo, sem buscar concretamente ou ativamente por isso, atendendo pessoas – mulheres, que estão como estudantes de psicologia, ou tem como profissão a enfermagem, a psicologia, a medicina e atuam no SUS, em específico na atenção primária ou terciária, em unidades básicas de saúde ou hospitais. Me pego então, no lugar de cuidar de quem cuida. Tendo eu, me retirado da atenção básica de saúde por me sentir adoecida, pelos atravessamentos institucionais que esse fazer também carrega.

Assim sendo, retomo a reflexão presente no início dessa miscelânea de ideias, que é a condição organísmica da vida, a tendência formativa operante. O que me convida a presentificar o tema da psicologia em políticas públicas, agora ocupando outro lugar, não como um membro, mas uma refletora. E encontrei, no convite recebido, um espaço para dialogarmos o adoecimento das cuidadoras e cuidadores neste cenário. Percebo mesmo, que se trata de um adoecimento institucional. Neste sentido, ter como luz condutora a Abordagem Centrada na Pessoa, me faz pensar em diferentes modos de contribuições para facilitação da construção de ambientes que possibilitem o crescimento e desenvolvimento grupal nessas instituições. Poder pensar, e aqui consigo me ater a SUS e SUAS, pela experiência que carrego, apesar de valer para muitos outros setores. Portanto, pensar em políticas públicas que considerem a importância de provocar um movimento de cuidado grupal, que carreguem atitudes facilitadoras como empatia, consideração positiva incondicional e congruência, é para mim um cenário ideal de cuidado com as pessoas que ali se propõem a doar seu cuidado e atenção a população.

É fato que tratamos aqui de situar as políticas públicas como operando a lógica do mundo moderno, em seu caráter produtivista, tecnicista e explicativo. Sendo seus protagonistas, vistos como uma engrenagem dessa roda que gira sistematicamente e muitas vezes alienada por essa dinâmica. A proposta de espaços de cuidado, que considerem os trabalhadores, antes de tudo como Pessoas, se mostra a alternativa fundante de um novo modo de se fazer políticas públicas. Neste sentido, nos valer das contribuições não de uma teoria, mas de uma postura ética fundamental para qualquer relação de cuidado autêntico, como propõe Carl Rogers (2009), é promover saúde, sendo esta, uma das principais estratégias político-institucional do SUS.

Certamente, que não estou inventando a roda. O renomado psicólogo, professor, e já secretário de saúde em algum momento - Ruy Carlos Stockinger, tem levantado essa temática de forma sensível, cuidadosa, e potente, quando se dedica a reflexão da saúde do trabalhador, considerando a Abordagem Centrada na Pessoa do Trabalhador como uma postura e atitude de facilitação fundamental, perante a lógica social, em que a vivência ocupacional e social é a primeira definidora da identidade do indivíduo (Stockinger, 2026).

Vejo que precisei estar fora, criar novas identidades, para refletir de modo atualizado como é estar dentro, portanto, narrar essa experiência é encontrar novas maneiras de simboliza-la. Narrar é criar outra possibilidade de si mesmo, e neste contexto é também para mim, modo de conexão com o outro, com essa experiência de estar em um contexto muitas vezes marcado por exaustão, relações de poder, desconexão com suas estratégias fundantes como citei, a promoção de saúde.

Portanto, este diálogo é uma abertura de espaço para que, ao nos encontrarmos em nossas semelhanças e em nossas diferenças, sejamos um só organismo, já que, o ser humano se cria pessoa, na relação. Abrir portas para deixar emergir a compreensão da experiência de ser psicóloga ou psicólogo nesses contextos seria mesmo, fomentar a formação de um grupo reflexivo, na expectativa de que esse seja um espaço que possibilite a expressão emocional compartilhada de pessoas que são atravessadas por essa experiência. E por meio dessa relação estimular a potência já existente em nós, de crescimento pessoal, desenvolvimento e aperfeiçoamento do diálogo e das relações interpessoais nas instituições públicas.

Referências

ROGERS, Carl R. Tornar-se pessoa. São Paulo: Martins Fontes, 2009.

STOCKINGER, R. C. Psicoterapia centrada na pessoa do trabalhador. In: COPPE, A. A. F. Abordagem Centrada na Pessoa: Práticas e Reflexões. 1 ed. Porto Alegre: Nova Práxis Editorial, 2026. 134-164.

Escrito por

Aline de Oliveira Calisto

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